REBELDIA E SALVAÇÃO | A arte de Niki de Saint Phalle

REBELDIA E SALVAÇÃO | A arte de Niki de Saint Phalle


Boa parte da história da arte, especialmente
da arte contemporânea, é marcada pela figura do rebelde. É aquele que pensa no contra-fluxo do sistema. Seja qual for a época, todo rebelde é alguém
que tem convicções muito profundas a respeito das normas sociais estabelecidas no seu tempo. Geralmente são contra elas. Na arte, rebelde é o artista que trata em
suas obras de assuntos que quase ninguém quer ouvir, justamente porque quase ninguém
tem coragem de falar sobre eles. E coragem é o que não faltou na história
de uma das rebeldes mais importantes do século XX. Niki de Saint-Phalle entrou na história da
arte pelas portas do Novo Realismo. Esse é um assunto que a gente já tratou
em outros vídeos, mas só pra relembrar, em resumo é o seguinte: Novo Realismo é um período na história
da arte que aconteceu na França no início dos anos 60, quando alguns artistas, visionários,
perceberam que tinham propósitos em comum, e juntos assinaram um manifesto que explicava
suas motivações. Eles trouxeram ideias que exerceram muita
influência nas décadas seguintes, e ainda hoje são base pro entendimento do que é
a arte contemporânea. E a Niki, que era era a única mulher no grupo,
teve um papel fundamental nessa história. Suas obras fogem de tudo que se costumava
entender como arte até então. Por vários motivos. Primeiro, porque as pinturas não são feitas
com pincel, elas são feitas com uma espingarda. E segundo, porque a tela não é exatamente
uma tela, uma superfície lisa. A artista construía um conglomerado de objetos,
onde ela colocava de tudo: machados, lâminas, armas, objetos religiosos… No meio disso
tudo, ela escondia saquinhos de tinta e latas de spray que explodiam conforme eram atingidos
pelos tiros. Os alvos eram muitos. Ela atirou em políticos, em patriarcas, no
mito de beleza feminina e na ingreja enquanto instituição. Essas ações chamavam muito a atenção do
público. Até porque, nessa época, em 1961, acontecia
uma guerra entre França e Argélia, e um tiroteio em praça pública definitivamente
era algo que não passava batido. As pessoas faziam fila para atirar nas obras
de arte! Aliás, esse é um ponto importante: nas primeiras
sessões de tiro que a Niki promoveu, o público podia participar. No vocabulário da arte, esse tipo de obra,
que é executada ao vivo e tem participação espontânea do público, é chamado de happenning,
é um tipo de arte performática que estava começando a surgir naquela época, com mais
força em Nova York por meio de um artista chamado Allan Kaprow. O assunto da história da performance é muito
amplo e merece ser tratado com mais profundidade em outro vídeo. Mas por hora, o que nos interessa compreender
é que Niki de Saint Phalle foi uma pioneira e sua arte influenciou gerações de artistas
que surgiriam nos próximos anos. Mas afinal, de onde vinha tanta violência? O que nutria essa força criativa da Niki? Para entender, a gente precisa conhecer a história
dessa mulher antes da arte. Ela nasceu na França, em uma cidade próxima
a Paris e cresceu seguindo a trajetória convencional que era esperada de uma moça nascida em uma
família muito rica e muito conservadora. Ela se casou aos 19 anos, teve o primeiro
filho aos 21 e era um rostinho bonito nas capas das revistas de moda e comportamento
da época. Nesse mundinho aparentemente perfeito, aos
23 anos, ela teve um colapso psíquico e foi internada em uma clínica. Lá foi diagnosticada como esquizofrênica
e passou a receber terapia de eletrochoque e insulina. Foi a partir dessa experiência que ela se
aproximou da arte. Foi graças à expressão visual que ela pôde
manifestar sua violência interna e dar vazão a um evento traumático de sua infância. Niki foi vítima de incesto, abusada sexualmente
pelo pai quando tinha 11 anos de idade. A arte para ela foi uma espécie de exorcismo
mesmo. E depois de três anos realizando as sessões
de tiro, Niki entrou em uma nova fase do seu trabalho, com outra visão de mundo. Agora, suas imagens são mais positivas e
alegres. O principal assunto aqui é a identidade da
mulher na sociedade. Essas figuras, que ela chama de Nanas, são
feiticeiras, noivas, mães. Mulheres férteis, fortes e coloridas. Algumas das Nanas eram bem grandes. A mais gigante delas tinha quase 30 metros
de comprimento. Foi uma instalação que aconteceu no Moderna
Museet em Estocolmo, em 1966. O público podia entrar na escultura, que
ficava deitada com as pernas abertas, como se estivesse dando à luz. Lá dentro, as atrações eram bem peculiares:
tinha um cinema, um planetário, um bar de leite, um aquário e uma exposição com obras
famosas de vários artistas, todas falsas. A Niki foi uma artista com grande sucesso
comercial ao longo de sua carreira. As Nanas renderam uma série de produtos que
foram comercializados massivamente. Móveis, roupas, joias, boias, bonecas e
até um perfume. Alguns anos depois dessa fase, em 1978, a
artista começou a se dedicar àquele que seria seu último e maior projeto, o Tarot
Garden, um jardim de esculturas na Itália que levou 20 anos para ser construído. O local foi inaugurado em 1998, quatro anos
antes da artista falecer. Sem dúvida o trabalho dessa artista mudou
muito ao longo de sua vida. Ela surgiu como uma rebelde agressiva, e conforme
foi amadurecendo, seu protesto permaneceu, mas se tornou menos estridente e mais conciliatório. De uma forma ou de outra, o poder da mensagem
que ela comunica repercute até hoje, e sua história de superação serve como um lembrete
de que existe salvação por meio da arte. Eu fico por aqui. Até a próxima! Se você gosta de aprender sobre arte, quero
te convidar a conhecer o calendário de cursos da Adelina. A Adelina oferece uma programação educativa
voltada tanto para iniciantes quanto para iniciados. A Adelina fica em São Paulo, no bairro de
Perdizes, e você pode conferir a programação no link que eu vou deixar na descrição desse
vídeo.

58 Replies to “REBELDIA E SALVAÇÃO | A arte de Niki de Saint Phalle”

  1. Esse vídeo foi muito especial pra mim, obrigada 💙
    Me identifiquei muito com essa artista por causa de sua doença e a questão da salvação pela arte.

  2. maravilhoso o vídeo! uma mini observação, sem querer soar como fiscal: ela foi vítima de abuso sexual incestuoso,né. quando fala incesto a gente foge do fato de que ela foi abusada enquanto criança :~ enfim. no mais, faça mais vídeo maravilhosos pra gente <3

  3. Que felicidade! 😀😀😀😀😀
    Adoro os vídeos de vcs. Muito importante na formação dos artistas.

  4. Que ótimo! Vocês voltaram!!! Nem vi o vídeo e já tem o meu like pra ter outro em breve. Adoro o trabalho de vcs e espero que continuem. Um grande abraço e muito obrigado.

  5. Muito feliz por vocês voltarem, e grata por poder aprender com conteúdos tão interessantes no canal, parabéns já sou fã 🙂

  6. amei o canal, minha professora de artes passou um vídeo na sala e achei incrível. que bom que os vídeos voltaram.

  7. Que ótimo que voltaram! Curto muito o conteúdo como um todo. Será que eu poderia deixar uma sugestão? Seria legal se criassem uma playlist/série de vídeos sobre outros temas menos generalistas do que propriamente a história da arte contemporânea, tais como: arte contemporânea brasileira, história dos museus de arte, entrevistas com artistas, curadores, sugestões de filmes, etc.

  8. Que sorte ter encontrado esse canal! Não deixe de fazer esses vídeos, que são excelentes e agregam tanto. Não deixe esse projeto! Sucesso! <3

  9. Uma dessas Nanas integra o acervo da Pinacoteca de São Paulo, é uma das esculturas mais bonitas do museu, vale muito a pena a visitação para apreciar essa obra.

  10. que delicia que voces voltaram aaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaa tava morrendo

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